Rosangela é uma imigrante brasileira que deixou para trás uma carreira na indústria farmacêutica e hoje sonha poder ter um emprego fixo; Danilo dedica a vida à luta contra a precariedade laboral, mas sempre teve salários baixos; Alice, Guiomar, Rui e António estão desempregados, são mulheres e homens atirados para a margem.

Todos com mais de 45 anos, têm em comum uma vida de trabalho em cima e partilham a dificuldade em encontrar um emprego com um salário digno, que lhes pague as contas.

É como se
vinte e tal anos
de experiência
fossem uma
fraude

A cama de Rosangela Camelo não é só um lugar de conforto, é também um símbolo da sua perseverança. Dormiu no chão durante sete meses e 16 dias, o tempo que levou a juntar dinheiro para poder descansar com dignidade. Antes de se mudar para o Bairro 25 de Abril, em Linda-a-Velha, partilhar o quarto era a única forma de, ao final do dia, ter um tecto sobre a cabeça.

Nem sempre o dinheiro lhe tirou o sono. Em 2017, com 44 anos, tinha uma carreira de topo na indústria farmacêutica, no Brasil. Mas o frenesim da rotina levou-a a um esgotamento, e começou a ter medo de andar nas ruas de Recife, a cidade do Nordeste onde vivera toda a vida.

Aterrou em Lisboa em Agosto de 2018. Nessa altura, começou a trabalhar como empregada de limpeza, sem contrato e a receber pouco. Os custos e as burocracias adiaram-lhe o plano de pedir equivalência ao diploma de Farmácia; foram meses a tirar à boca para conseguir pagar a renda.

Rosangela sabe que um estômago aconchegado torna qualquer viagem mais fácil. Talvez seja por isso que uma das primeiras coisas que faz quando nos encontramos seja pôr chá e bolachas na mesa. Tem um rosto sereno, que esconde as marés bravas por que teve de passar.

Aterrou em Lisboa em Agosto de 2018. Nessa altura, começou a trabalhar como empregada de limpeza, sem contrato e a receber pouco. Os custos e as burocracias adiaram-lhe o plano de pedir equivalência ao diploma de Farmácia; foram meses a tirar à boca para conseguir pagar a renda.

Rosangela sabe que um estômago aconchegado torna qualquer viagem mais fácil. Talvez seja por isso que uma das primeiras coisas que faz quando nos encontramos seja pôr chá e bolachas na mesa. Tem um rosto sereno, que esconde as marés bravas por que teve de passar.

Comecei a ajudar na farmácia de meu pai aos dez anos.

Aos 15, já tinha contrato de trabalho e responsabilidades. Meus pais me davam educação, casa e transporte, mas eu me calçava e me vestia. Com 16 anos, entrei na Universidade Federal de Pernambuco para fazer Farmácia. Me encantei pela profissão quando assisti uma palestra, não foi porque meu pai tinha farmácia.

Me formei com 21 anos, com especialização em Análises Clínicas. Infelizmente, não concluí as outras especializações disponíveis — Indústria e Toxicologia — por falta de professores.

Migrei diretamente para a farmácia hospitalar porque tinha pressa de entrar no mercado.



Trabalhei nessa área até 2014. Saí para gerir uma central de distribuição de material médico-hospitalar e de medicamentos. Era responsável pelo abastecimento de todos os hospitais da OPS Serviços Médicos e Hospitalares, uma empresa que tinha filial no estado de Pernambuco.

O meu horário oficial era das 8h às 18h, mas trabalhava quase 16 horas por dia. Sempre tinha três telefones do lado. Não podia deixar faltar nem um item de uma gama de 7800 produtos, entre material médico-hospitalar, cirúrgico e medicamentos.

A empresa assumia alguns tratamentos importantes — como hemodiálise —, não podia faltar um dialisador capilar ou uma solução ácida ou básica.

Isso significava a vida ou a morte de alguém. E tudo dependia de mim.

Além do mais, morava muito perto do aeroporto. Às vezes, quando faltava algum material para um procedimento que ia ter no outro dia, a gente encontrava e mandava de uma filial para outra por avião.

Eu ia esperar o voo às 2h da madrugada para ser entregue antes das 6h no hospital, porque o paciente iniciava a quimioterapia às 7h.

Mais, era responsável por 26 colaboradores que faziam fraccionamento de material médico: recortavam e embalavam individualmente milhares de comprimidos. Tinham de ser infalíveis.

Ganhava em torno de 9000 reais — o que na época equivalia a 3000 euros —, mas não tinha vida pessoal. Para ter férias, precisava sair do Brasil. Se ficasse lá, estaria trabalhando igual, porque a empresa tinha filiais em quase todos os estados.

Não tinha tempo para levantar da minha secretária e fazer uma refeição. Havia fornecedores para atender, funcionários para orientar, hospitais solicitando produtos. Os funcionários me apanharam do chão várias vezes.

Rosangela interrompe o discurso e engole em seco. As memórias dos dias em que tinha a vida dos outros nas mãos são demasiado dolorosas. Pô-las em palavras é como conjurar, de novo, o caos do mundo empresarial. À medida que cuidava da saúde dos outros, a sua ia-se deteriorando. Era o preço a pagar pelo sucesso.

Todo o mês aumentava o serviço, mas os recursos eram os mesmos. Comecei a ficar muito mal e exigi que aumentassem a minha equipe de trabalho. Prometeram-me que o fariam, mas como nunca cumpriram, eu pedi demissão.

Depois tirei um ano sabático. Passei três meses na Europa. Fiquei um mês em Malta fazendo um intercâmbio de inglês e visitei outros países. Decidi que queria morar em Luxemburgo: a calma e organização do país eram o oposto do que conhecia.

Mas um rapaz me disse que, por conta da língua, seria mais fácil morar em Portugal primeiro, equivaler meu diploma e depois ir.


Voltei para o Brasil sem ter isso como projecto de vida. Fiquei meses acordando ao meio-dia e indo para a praia, só me preocupava em escolher o biquíni que ia usar.


Mas comecei a ter medo de andar na minha cidade.

Um dia, estava voltando da praia a pé, às 4h da tarde, e um homem tentou me atacar sexualmente.



Não conseguiu, mas o impacto emocional disso foi enorme.

Poucos dias depois, estava a sair do bairro quando ouvi os estampidos de tiros. De um lado, estava a polícia; do outro, homens assaltando um banco; no meio, eu deitada no banco do carro à espera que aquilo passasse.



Foi aí que eu falei: “Chega. Não quero mais viver aqui.” Vendi meu carro, mobília e roupas. Algumas coisas eu dei. E vim aportar a Portugal.

Trouxe algum dinheiro para não me preocupar durante alguns meses. Fiquei num aluguel temporário por dez dias e depois arranjei um quarto em Odivelas. Nem sabia onde isso era, só queria um quarto. Pagava 350 euros de renda, mais 62 de passe para chegar em Lisboa e procurar emprego. Me apercebi que, em pouquíssimos meses, o meu dinheiro iria acabar.

Consegui trabalho na Lisbon Best Apartaments, uma empresa de apartamentos turísticos, a recibos verdes, mas não durou 15 dias. A senhora que me dava instruções era mãe da supervisora. Quando soube que eu tinha curso superior e falava outros idiomas, começou a me ver como um risco para o trabalho da filha. Fui demitida.

Em Setembro de 2018, entrei numa empresa que tinha a concessão de limpeza do estádio do Benfica. A gente até picava ponto, mas recebia por recibos verdes. Nesse trabalho, não cheguei a ganhar 300 euros mensais.

Aí, a empresa perdeu a concessão, ia entrar outra que funcionava dentro das normas. Mas só contratavam pessoas com título de residência.

Como eu tinha apenas o documento da manifestação de interesse, não pude ficar.

Mais tarde, entrei na Cleany, também de limpeza de apartamentos turísticos, a recibos verdes. Ganhava por dia de trabalho. A gente tinha que estar sempre disponível e eles só chamavam no dia. Tinha semanas que só trabalhava dois dias.

Como ganhava muito pouco, falei com amigas que trabalhavam noutra empresa, responsável pela copa do Benfica. Aí, pagavam 40 euros por noite de trabalho: começava a lavar a loiça do final do jogo às 19h e terminava às 7h da manhã seguinte.

Como ganhava muito pouco, falei com amigas que trabalhavam noutra empresa, responsável pela copa do Benfica. Aí, pagavam 40 euros por noite de trabalho: começava a lavar a loiça do final do jogo às 19h e terminava às 7h da manhã seguinte.

Um dia, escorreguei no chão da cozinha. Não tinha dinheiro para ir ao hospital, mas a empresa disse que pagaria tudo e me levou. Nunca pagaram. Ao invés de ganhar os 40 euros, perdi 65 do hospital, mais 30 do medicamento.

Não me voltaram a chamar.

Semanas antes, tinha saído da casa em Odivelas. A mulher que alugava era muito conflituosa: um dia, teve uma discussão acesa com a moça do outro quarto e tentou esganar ela. Deu polícia, INEM, tudo.

Rosangela arriscou tudo em busca de um porto seguro. Sabia que o dinheiro não trazia paz de espírito, por isso, nenhum sacrifício lhe pareceu demasiado. Andou como caracol, de casa às costas, a dormir entre desconhecidos, até encontrar poiso.

Não se arrepende de nada.

Em Novembro de 2018, fui viver num hostel no Marquês de Pombal. Dividir o quarto com mais três pessoas era tudo o que nunca imaginei. Sou filha única; sempre tive a casa para mim. Ali, me senti segura, mas precisava ter o meu espaço. Por coincidência, estava a chegar a época alta e a dona queria voltar a alugar o quarto para turismo.

Tive que ir para outro, dois andares abaixo do chão, cheio de humidade e para partilhar com quatro pessoas. A minha cama ficava a 15 centímetros do chão.

Dali, partiu o desespero de procurar casa para alugar. Foi uma colega de quarto do primeiro hostel que encontrou esta casa. A única divisão que não era mobilada era esse quarto. Só tinha esse armário embutido e essa estante.

Mas depois, ela conheceu uma pessoa e quis sair da casa. A partir daí, eu teria de pagar 750 euros de renda sozinha. O turismo tinha fechado por causa da pandemia; o contrato verbal que eu tinha na Tadsa, onde fazia limpeza de apartamentos turísticos, ficou sem efeito e não podia sair para procurar trabalho. Recebi ajuda da Segurança Social por três meses, nos valores de 198, 230 e 302 euros respectivamente.

As minhas poupanças davam até Abril. Por volta dessa altura, fui entrevistada pela revista Visão e, dali para a frente, começaram a surgir os milagres: a doação de um leitor que, somado ao apoio da Segurança Social , me aguentou por três meses; e a negociação com o senhorio, para baixar a renda para 500 euros.

A 12 de Março de 2020, o Governo português aprovou várias medidas para acautelar a protecção social dos trabalhadores face à situação epidemiológica causada pela Covid-19. O Decreto-Lei n.º 10-A/2020 definiu um apoio mensal extraordinário para trabalhadores independentes cuja actividade sofreu uma paragem total, com um valor equivalente ao “da remuneração registada como base de incidência contributiva” e o tecto máximo de 438,81€, referente ao valor do Indexante dos Apoios Sociais (IAS).
Foi determinado, ainda, o diferimento do pagamento de contribuições durante o período de atribuição deste apoio financeiro, prorrogável mensalmente até cinco vezes. Fonte

Rosangela tem fé, um escudo que lhe amortiza o impacto de qualquer atribulação. E, nos dias mais duros, acredita que há alguém que a protege, que não a abandona. Mesmo quando perde o chão, não se deixa paralisar. Confia que, sempre que põe um pé à frente do outro, o tapete acaba por se estender.

Em Julho, meus amigos me chamaram para ir na praia. Na volta, quem me deu boleia me contou que trabalhava numa empresa de lavagem de carros, que também desinfectava os pontos de contacto da praia. Pedi para me falar se soubesse de alguma vaga.

Comecei a trabalhar na praia no início do mês, fazendo folgas de colegas e fins-de-semana. Duas semanas depois, a empresa assumiu a limpeza da Junta de Freguesia de Caxias e me chamaram. Trabalhei todos os dias durante dois meses e meio.

Quando acabou o Verão, passei a ter só a Junta de Caxias e, em Dezembro, o meu supervisor me avisou que o contrato terminaria em Janeiro e não seria renovado. Perguntei porquê.

Não existem dados públicos sobre o número de trabalhadores a recibos verdes em Portugal. A falta de informação tem dificultado a actuação da Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT) no combate à precariedade. Agora, está em curso um processo para viabilizar a partilha destes dados, depois de em Outubro de 2021 o Parlamento ter aprovado uma proposta de lei que determina a “interconexão de dados” entre a ACT, o Instituto da Segurança Social e a Autoridade Tributária e Aduaneira.
Desconhecem-se, igualmente, os números oficiais de recibos verdes ao serviço do Estado. O Programa de Regularização Extraordinária de Vínculos Precários na Administração Pública (PREVPAP) foi lançado em 2016 para regularizar a situação de trabalhadores cujas funções satisfazem necessidades permanentes das entidades públicas. Fonte | Fonte

— A empresa não efetiva ninguém. Trabalha seis meses, encerra o contrato, e depois abre outro. Têm que passar umas duas semanas para se poder fazer um novo contrato.

— E nessas duas semanas, eu vou comer o quê? Vou trabalhar em quê?

— Infelizmente, nada. Também pode ficar connosco a recibos verdes.

Não existem dados públicos sobre o número de trabalhadores a recibos verdes em Portugal. A falta de informação tem dificultado a actuação da Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT) no combate à precariedade. Agora, está em curso um processo para viabilizar a partilha destes dados, depois de em Outubro de 2021 o Parlamento ter aprovado uma proposta de lei que determina a “interconexão de dados” entre a ACT, o Instituto da Segurança Social e a Autoridade Tributária e Aduaneira.
Desconhecem-se, igualmente, os números oficiais de recibos verdes ao serviço do Estado. O Programa de Regularização Extraordinária de Vínculos Precários na Administração Pública (PREVPAP) foi lançado em 2016 para regularizar a situação de trabalhadores cujas funções satisfazem necessidades permanentes das entidades públicas. Fonte | Fonte

Às vezes, chegava em Caxias com fome: ganhava 328 euros e pagava 500 de renda. Um dia, uma colega viu que eu não estava bem. Quando soube que estava passando necessidade, ligou à assistente social da minha freguesia. Recebi ajuda da Câmara de Oeiras por três meses.

Os olhos de Rosangela ficam marejados quando recorda o tempo em que abria o frigorífico e não encontrava nada lá dentro. Chegou a Portugal com um pé-de-meia razoável, jamais pensou ter de passar por tanto perrengue. Mas as dificuldades sucederam-se.

Entretanto, aconteceu outro milagre: em Maio de 2021, a Junta de Freguesia de Paço de Arcos estava a ser reabilitada e a presidente soube da minha situação.

Essa mulher fez uma revolução na minha vida. Me levou para almoçar, mandou trazer o cabaz da loja social e disse à concessionária de Caxias que estenderia o contrato, mas só se eu fosse trabalhar também para Paço de Arcos. O meu salário passou para 600 euros.

Hoje trabalho seis horas e ganho 640 euros. Consigo pagar as minhas contas. Se tiver de fazer um exame médico, entro em dívida com amigos. Mas nada que tire minha paz.

Este é o meu primeiro contrato efectivo. Mas o contrato da empresa com a junta acaba no final do ano. Com o novo concurso, não há garantia de que a minha empresa permaneça. Estou entrando de férias sem saber se, em Janeiro, vou estar empregada.

Adoro o que faço aqui. Gosto tanto que incomoda.

A presidente diz-me: “Rose, eu não gosto quando você diz que gosta de limpar. Quem é que gosta de limpar?”

Os psicólogos sempre dizem que, quando a gente está arrumando as coisas, acaba arrumando as ideias.

Eu sinto muita paz.

Vim de uma situação onde não podia falhar. Agora, se eu esquecer uma manchinha no vidro, no outro dia vou lá e tiro. Ninguém vai morrer.

Contudo, gostaria de ter mais condição física para essa função, porque me sinto já velha para aguentar isso por muito tempo.

Tem pessoas que ainda olham e dizem: “Ah, não é ninguém não, é a mulher da limpeza.” Não me incomodo com isso.



As pessoas da junta de freguesia conhecem minha história e me respeitam muito. São elas que cuidam de mim quando preciso.

O maior desafio é que uma mulher portuguesa goste de uma mulher brasileira. Aqui na rua, vejo isso. Tem uma senhora que olha torto para mim.



A da esquina já me cumprimenta, porque se passaram três anos, mereci a credibilidade dela. Tem uma senhora que pega o autocarro à mesma hora que eu há mais de um ano. Há três meses, começou a me dar bom dia. Isso é um progresso.

O maior desafio é que uma mulher portuguesa goste de uma mulher brasileira. Aqui na rua, vejo isso. Tem uma senhora que olha torto para mim.



A da esquina já me cumprimenta, porque se passaram três anos, mereci a credibilidade dela. Tem uma senhora que pega o autocarro à mesma hora que eu há mais de um ano. Há três meses, começou a me dar bom dia. Isso é um progresso.

A dias de regressar ao Brasil para passar o Natal, Rosangela está a treinar Sílvia, uma colega também brasileira, para a substituir durante as férias. Mas, mais do que dar instruções sobre cada tarefa, faz questão de integrá-la nas dinâmicas da Junta de Freguesia de Paço de Arcos.
Quem as ouve a conversar, na pausa do trabalho, julga que se conhecem há anos.

A primeira vez que me senti posta para fora daqui foi nas Finanças. Recebi uma carta dizendo que eu devia 380 euros.

Eu tinha feito minha declaração de IRS presencialmente, para não dar errado, aparentava estar tudo regularizado.

Esperei o dia inteiro para saber a que se devia esse valor. A atendente não soube responder, nem mostrou vontade de procurar uma resposta. Insistia que eu tinha de pagar e pronto.

Avisou-me, com ironia: “Se eu fosse você, pagava, ou…” e deu uma risadinha. Como quem diz: “Pega nas suas coisas e vai para o seu país.”

Soube, depois, que tinha havido um erro de quem fez a declaração nas Finanças, colocaram que eu morava fora do país. Como a correcção foi feita fora do prazo, tive de pagar 80 euros de multa.

O que me choca no serviço público é a interpretação da lei. Outra vez, fui nas Finanças alterar a morada para o bairro onde agora vivo. Ela me disse que o contrato da casa não valia, porque não estava registrado. Realmente, não está.

Isso é outra coisa que Portugal não resolve: as pessoas têm os imóveis e não registram eles nas Finanças para não pagar imposto. Você paga um valor exorbitante de renda e não tem restituição nenhuma. E, como você é imigrante, é pegar ou largar.

Ser estrangeiro e conseguir autorização de residência para viver em Portugal lembra uma epopeia sem fim: sem documentação de residência, não é possível conseguir um contrato de trabalho; sem um visto de trabalho ou de estudo, não é possível ter residência; sem rendimentos garantidos, não é possível alugar uma casa.

Também tive problemas com o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF). A manifestação de interesse para aceder ao título de residência foi aprovada, mas demorou muito. Cheguei a 12 de Agosto de 2018 e tinha 90 dias para submetê-la. Fiz isso no início de Novembro, mas esperei um ano pela resposta. O SEF me acusou, falsamente, de ter ficado ilegal em Portugal.

Me senti ameaçada e paguei 80 euros para ter o documento. Se dissesse não, aí eu realmente estaria ilegal.

A minha colega de casa tinha 400 euros de multa para pagar e foi isentada de tudo. A cada agência de SEF que se vai, há uma política e leitura da lei diferentes.

Em 2020, 662.095 cidadãos estrangeiros residiam em Portugal, segundo dados do SEF. O número corresponde a 6,4% do total de habitantes do país; os brasileiros constituem a maior comunidade estrangeira presente em Portugal: há 183.993 cidadãos com título de residência válido. Fonte | Fonte

A minha colega de casa tinha 400 euros de multa para pagar e foi isentada de tudo. A cada agência de SEF que se vai, há uma política e leitura da lei diferentes.

Recentemente, consegui o Estatuto de Igualdade de Direitos e Deveres, do Tratado de Porto Seguro [documento que dá direitos e deveres iguais a portugueses residentes no Brasil e a brasileiros residentes em Portugal], o que me pode ajudar nas equivalências do curso.

Tentei fazer isso quando cheguei, mas o valor era muito alto para as minhas posses. Pagava-se entre 500 e 550 euros. Agora, a taxa vai cair bastante.

Ainda assim, não sei se serei farmacêutica de novo.

Meu diploma é de 1995 e tem uma grelha curricular diferente. Me disseram que só terei acesso a equivalência de licenciatura, o que não dá direito a exercer a profissão.

Isso me dói muito: é como se os meus 20 e tal anos de experiência fossem uma fraude.

Com a incerteza da empresa e a lesão que tenho no ombro direito, já me preparo para procurar trabalho em outra área. Vou tentar em farmácia, mesmo que seja para trabalhar na esteira da indústria, encaixotando medicamentos.

Mas está surgindo um novo caminho. Adoro viajar e fazer roteiros para as pessoas. Isso encantou uma senhora da junta de freguesia que é guia turística nas horas vagas. Talvez eu comece a pegar grupos para apresentar Lisboa.

Rosangela diz conhecer a cidade como poucos. O português do Brasil mistura-se com o de Portugal, que também já faz parte de si: nos artigos definidos, que começam a vir antes dos nomes, na “carona” que agora é “boleia”... O uso do gerúndio e os sons “di” e “ti” no final das palavras continuam a denunciar-lhe as raízes, mas hoje garante estar longe de se sentir estrangeira.

Se não der certo a minha equivalência, talvez regresse à universidade para me qualificar melhor nessa área.

Gostava de morar sozinha. Me dou muito bem com meu amigo com quem divido casa, mas não é a mesma coisa. Estive noiva e acabei o noivado três vezes porque não queria dividir meu espaço.

A questão é que eu não tenho condição de pagar uma casa sozinha aqui. A discrepância entre salários e rendas é uma conta que não bate.

Antes, a minha única dificuldade era decidir onde iam ser minhas férias. Era uma vida vazia, porque o dinheiro era muito; não tinha onde gastar as roupas caras que comprava, porque só trabalhava.

Aqui, não faço questão de usar marcas, mas estou feliz.

Pedi minha reforma antecipada no Brasil por conta da reviravolta que o mundo teve. Não tenho idade, mas tenho tempo de contribuição. São cerca de 400 euros. Esse valor vai ser apenas para uma emergência. Não posso transformar um dinheiro que é seis vezes menor num dinheiro que me sustente aqui.

Voltar para o Brasil? Só para comer, tomar minha água de coco, meu banho de mar de água morna e matar saudades dos meus amigos. O meu lugar não é mais lá. É aqui, mesmo com toda a dificuldade.

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